O tao tao de Saturno

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Texto de autoria de Sofia Martinho:

A minha amiga Mafalda pediu-me para escrever uns textos sobre astrologia para o seu novo mega projecto. Disse-lhe logo que sim, sem dar tempo a que a informação parasse na casa partida, o mesmo é dizer pelos travões da mente saturnina, que ajudada por Mercúrio, o planeta dos processos mentais, me iria berrar aos ouvidos, “mas o que é que tu sabes de astrologia para te achares com direito a escrever sobre o tema e ainda por cima a achar que os outros vão considerar essa treta suficientemente interessante”? Não tardava assim que o meu amigo Saturno, mal levantasse voo, me atirasse à cara com medos, inseguranças, limites, regras. Decidi não o ouvir desta vez. De vez em quando tem de ser. E quando dou por mim, eu que pensava estar a escrever um texto sobre Aquário, signo que corresponde ao calendário actual – 20 de Janeiro a 18 de Fevereiro – dou por mim a falar deste chato, deste planeta pesado, que rege o signo de Capricórnio (e é co-regente de Aquário a par de Úrano), o meu signo por sinal, e que de todos os dez planetas (em Astrologia o Sol também entra na contagem) é para mim um dos menos simpáticos, porque também temos simpatias nestas coisas astrais, e talvez por isso um dos que tenho mais dificuldade em compreender apesar de, como regente do meu signo solar, as suas energias fazerem parte vincada de mim, assim como de todos os capricornianos.

Planeta pesado, simboliza as nossas estruturas de sobrevivência, as que erguemos desde tenra idade para subsistir na sociedade em que aterramos à nascença e sobre os quais a nossa opinião não é tida nem achada (ou seja, se esta treta desta sociedade está organizada de acordo com o modelo capitalista ultra-liberal, isso é um dado prévio ao início da nossa jornada pessoal neste mundo, sendo que, para não irmos ao fundo, temos a proteção de Saturno, que conhece as regras e nos dá as estratégias de sobrevivência necessárias, que ao mesmo tempo que nos salvam nos condicionam).

Sem Saturno, que rege as estruturas sociais, éramos sem dúvida loucos aluados, peixinhos incapazes de cumprir horários, tirar cursos em três anos, encontrar trabalho sem sermos despedidos no dia a seguir, pagarmos as prestações do carro ou sabermos que devemos usar fato e gravata naquela reunião. Saturno dá-nos responsabilidade e disciplina e espírito de trabalho, e isso é bom, claro. Mas Saturno também não gosta muito de territórios que não conhece, não balizados pela sua experiência, que escapam à sua zona de conforto, aquela onde consegue exercer controlo porque já conhece as regras. Saturno não é grande fã de festas surpresas. E para nos proteger, tenta prender-nos ao estabelecido, lança avisos quando sente que virar ali à direita pode conduzir-nos a um desfiladeiro, faz sinais de fogo porque pode haver feras selvagens a rondar-nos e em certos casos dá nos mesmo umas palmadas no rabo.

Claro que isso é bom, porque nos impede de cair (logo de sofrer), mas como tudo é dual, também isso é mau porque nos impede de evoluir, de crescer, porque não é possível realizar esse processo sem experimentar o novo, (como se pode pedir a uma criança que evolua sem estímulos constantemente novos, sem o fascínio da novidade?). Não sejamos nem tanto ao mar, nem tanto à terra e claro que devemos escutar lá os conselhos de Saturno mas, em certos casos, não ligarmos mesmo nenhuma. Ate que ponto o que ele nos diz, os limites que impõe, não satisfazem já o nosso sol, o mesmo é dizer a nossa consciência? Se fizermos uns arranhões, faz parte do crescimento e a verdade é que por vezes há surpresas bem agradáveis fora das quatro paredes em que teimamos em viver.

Quando ouvimos uma voz na nossa cabeça a dizer ‘não faças’, ‘não podes’, ‘não deves’, é ele a tentar prendê-la ao território confortável, mas também limitador que domina. Fale com ele. Avalie os motivos. Não se deixe ficar sem o colocar em causa. Temos de ser capazes de nos colocar em causa, ou então somos marionetas movidos pelo lado mais medroso e convencional de nós próprios e depois queixamo-nos que não saímos da cepa torta. Saturno diz-lhe que não pode mudar de emprego, fazer aquela viagem, responder ao chefe? Responda-lhe “poder posso, poder posso tudo” (menos o que é uma impossibilidade física, claro, como saltar de um prédio de sete andares e pensar que vai sair ileso, estilo Matrix), mas a questão real é “será que quero?” E nesse caso qual o medo que nos condiciona?  Qual a memória menos boa do passado que  nos está a travar os movimentos? Sem colocarmos Saturno em causa, sem avaliarmos a toda a hora se ele nos protege ou limita, viveremos a vida sempre áquem das nossas capacidades e possibilidades. E nem sequer damos a Saturno a possibilidade de também ele crescer, alargar o seu espectro de experiências e sim, continuar lá para nós. Saturno não vai desaparecer porque se arrisca. Saturno vai integrar essa experiência e caminhar passo a passo com o nosso Sol, dar lhe apoio na sua jornada de autodescoberta. Afinal o velhote não é assim tão chato como isso!

Sofia Martinho 

Crédito da imagem: lostknightkg Great astrological clock 

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