Diagnóstico certeiro

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Lembro-me como se fosse hoje. Estava numa fase, como quase sempre acontece aos 18 anos, de enamoramento da vida. Estudava, havia começado a trabalhar e a ganhar o meu próprio dinheiro, tinha o meu núcleo de amigos e namorado. Subitamente, e sem entender as razões comecei a sentir alguns sintomas estranhos: lado direito do corpo dormente, falta de equilíbrio, braços a perderem força, sem conseguir escrever ou segurar num copo convenientemente e, ainda, visão dupla. Mesmo nunca perdendo o sentido de humor (possivelmente fruto da inconsciência…) – recordo-me de dizer muitas vezes que íamos com o carro cheio, perguntando se não estavam apertados no banco de trás? Quando na realidade iam apenas duas pessoas sentadas… – a verdade é que me assustei. E foi, sobretudo, a sensação de visão dupla que me levou a uma urgência oftalmológica. Rapidamente o médico aferiu que a minha visão estava em perfeitas condições e que deveria de consultar um neurologista, com urgência. Assim o fiz. Iniciou-se um batalhão de exames, e com a ressonância magnética o diagnóstico, bastante rápido até. “A Mafalda tem Esclerose Múltipla”.

As palavras da Dra. Manuela Crespo, neurologista dos SAMS, caíram como num poço vazio, à espera de algo mais. Nem eu nem a minha mãe estávamos cientes do que se tratava. – Rapidamente fiquei a saber que a E.M. é uma doença do Sistema Nervoso Central, de causa ainda desconhecida e sem cura. Em traços gerais e abreviados, (voltarei à questão com maior detalhe noutro post), a perda de mielina, substância que todos temos em torno das nossas fibras nervosas, causa interferência na transmissão dos impulsos ao cérebro dificultando, assim, o controle de diversas funções orgânicas, como ver, andar, falar… Não é, por isso, incomum vermos doentes de E.M. em cadeira de rodas, por exemplo.

Depois de muita pesquisa caiu-me a ficha. Seguiram-se os corticoides via intravenosa (felizmente não fiquei com nenhuma sequela) e um indispensável processo de adaptação. Pedidos de segundas opiniões médicas, a necessidade de conhecer outras pessoas com o mesmo problema e muita leitura sobre o tema. Na altura quis saber tudo sobre E.M. Afinal, ela veio para ficar comigo o resto da vida, o melhor é saber o que fazer com ela!

Claro que me caíram as lágrimas, claro que questionei muito mas, também, com tanta doença que existe, alguma “merdica” haveria de ter. Sempre acreditei que o melhor é aceitar a doença, estar consciente da sua gravidade e dos cuidados específicos que devemos de ter. Não vale a pena ficarmos deprimidos, o que vale é o esforço de percebermos os nossos limites e identificarmos as nossas necessidades. Bem como, compreender que um diagnóstico destes não nos afeta apenas a nós. Todos os que nos rodeiam ficam envolvidos, sofrem, e acabam por descobrir o papel determinante que têm no apoio aos seus familiares e amigos.

Por fim, e como nem todos respondemos da mesma forma às situações, deixo-vos com um vídeo que ilustra bem as diferentes reações de um grupo de “esclerosados”, como eu ;), teve perante o diagnóstico da doença

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