JORGE PALMA. O enfant terrible

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Há entrevistas que pouco sabem a trabalho, e esta foi uma delas. Hoje mostro-vos a conversa informal que tive com Jorge Palma, e que foi traduzida num artigo publicado na última edição da BPMs. Não deixem de ler a entrevista, nem de ver o vídeo, produzido pela produtora Manual de Fantasia, onde o cantor fala da sua relação com a casa.

Boémio, rebelde, emotivo, genial. Há quem o considere o melhor cantautor português mas recusa-se a aceitar rótulos. O músico, compositor e intérprete, Jorge Palma, abriu-nos a porta de casa, sentou-se ao piano e tocou-nos as notas mais marcantes da sua vida. Já sabíamos que a musica mora(va) aqui. Faltava saber de que forma.

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O local não poderia ter sido mais bem escolhido. Passavam das três da tarde quando subimos ao apartamento do ‘grande’, sempre ouvira dizer, Jorge Palma. Ninguém se conhecia, mas rapidamente os toques ao piano quebraram o gelo. São dois, um de cauda e um curto. As guitarras espalhadas, os prémios de carreira, os livros, CDs e anotações amontoam-se sem ordem de importância. Tudo é relevante. A conversa decorreu sem pressas e, sem maquilhagem, numa espécie de viagem do passado deste mestre da música portuguesa.

Aos quatro anos tocava nas primeiras teclas, aos seis começou a aprender a tocar piano, aos oito iniciou-se nas audições e aos doze venceu o primeiro prémio num concurso internacional. “Trigo limpo farinha amparo”, como é que isto descambou ao ponto de ter ido parar a um colégio interno? “Tinha 14 anos e estava a seguir um caminho duvidoso. Mas visto a esta distância posso dizer que foi uma experiência que me marcou de forma positiva. Provavelmente, se os meus pais não tivessem tomado essa decisão hoje andava por ai a assaltar casas ou bancos”, conta. Ainda solta gargalhadas ao recordar comportamentos da juventude. “Houve uma fase em que não pagava as aulas de piano com o dinheiro que a minha mãe enviava por mim. E lembro-me bem do pimenteiro que a professora Fernanda Chichorro colocava em cima do piano para me meter na língua.”

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No livro ‘Na Palma da Mão’, a sua biografia oficial, percebemos que fez (quase) tudo politicamente incorreto, sobretudo para quem deseja trilhar um rumo na música. Em sua defesa diz apenas que foi o “contornar obstáculos e mentalidades”. Desistiu dos estudos, foi para Copenhaga para fugir à guerra colonial, trabalhou como camareiro de hotel, regressou a Portugal, e concluiu o curso na Escola de Música do Conservatório Nacional. Voltou a sair. Paris, Londres, Berlim… viveu em hotéis e tocou nas ruas. Não há volta a dar, a música permanece sempre como o centro da sua vida. O que vai fazer se um dia não puder cantar? “Não gosto de pensar nisso, se um dia me acontecer alguma coisa eu hei de dar a volta!”

A música é uma extensão do homem, do cantor, do compositor e intérprete. Jorge Palma respira música, transpira música. O seu último trabalho, editado em 2011, “Com Todo o Respeito”, foi galardoado com a distinção Pedro Osório, atribuída pela SPA – Sociedade Portuguesa de Autores. Que importância atribui aos prémios? “Recebo-os com satisfação, pois é um reconhecimento do meu valor e do meu trabalho, aprecio e sinto-me muito honrado.”

Está em digressão e, à semelhança das últimas três edições, também vai participar no Rock in Rio. Este ano em dueto com o João Pedro Pais, no Palco Mundo. E subir a um palco não é para todos. “Os nervos e a ansiedade surgem quando esperamos nos camarins. É a adrenalina pela vontade de estar junto do público. Depois deixo de ter tempo para pensar nisso, estou mais focado na música e nas letras, embora seja raro o concerto em que eu não tenho uma “branca”. Não há que esconder, paro e recomeço, o público compreende que falhar é humano e sinto uma cumplicidade enorme nesses momentos.”

Viveu o apogeu do sexo, drogas e rock n’ roll. “Foi uma vida muito ativa e enriquecedora do ponto de vista cultural e de mentalidade. O encontro com músicos de todo o mundo abriu-me horizontes e eu aprendi muito com todos eles.” Mas os excessos do “Sr. Frágil” foram, desde sempre, conhecidos. Hoje, garante que tem esse assunto bem resolvido. “O álcool foi o que perdurou mais, e até há pouco tempo. Mas o alcoolismo é uma doença e não me faz falta, prejudicou-me bastante. Nem sei como é que não me destruiu. Conheço muita gente cujas vidas foram arruinadas por causa do álcool e das drogas.”

Com tamanha experiência de vida e, “com todo o respeito”, quem é, afinal, Jorge Palma? “Sou uma quantidade de experiências acumuladas. De desejos, vitórias e derrotas. Tenho bom fundo, aliás como eu creio que todos temos quando nascemos. Depois, as condições em que crescemos é que determinam o caracter de cada um. Felizmente, eu tive bons guias e orientadores na minha vida. Tenho tido muita sorte com as pessoas que vou encontrando.”

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Os dois filhos, Vicente, 30, e Francisco, 19, são parte da sua motivação. E, inspiração. Não vive com eles mas estão por perto. É com Rita, a sua mulher, que divide o apartamento lisboeta onde nos recebeu. Antes desta, já viveu em tantas outras casas que lhes perdeu a conta. A mais inesquecível foi a que o viu nascer, a da mãe, na Penha de França. “Tenho a casa bem gravada na minha cabeça e no meu coração. Foi especial, até por terem sido lá os meus primeiros toques ao piano.”

Começa uma viagem pelo passado… “Na casa do meu pai, num prédio que ganhou o prémio Valmor eram festas todos os dias, night and day. Foi no tempo do Ary dos Santos, um mestre para mim. Tenho boas recordações dessa altura. Também vivi na Damaia, na Picheleira, no Guincho, na Parede, onde fomos corridos com um abaixo-assinado por causa do barulho… E na casa do Príncipe Real, onde as pessoas entravam e saiam pela janela. Como ficava no rés-do-chão e as manifestações eram constantes estávamos bem posicionados. Tenho gostado de todas as casas onde tenho vivido, pois faço delas ‘a minha casa’. É importante estarmos bem, confortáveis e sentirmos a sua pulsação, pois é o nosso ninho, o nosso castelo.”

Nesta está desde 2003, e diz que foi amor à primeira vista. “Imaginei logo as salas divididas, de um lado os pianos, e do outro, espaço para receber os amigos.” É caso para dizer que a Música Mora Aqui… “Completamente. E os vizinhos que o digam! Na primeira noite que dei uns toques ao piano, eram umas 22h30, ouço uma vassourada vinda do andar de baixo. No dia seguinte pedi desculpa, expliquei que era a minha vida, o meu trabalho e nunca mais tive problemas.” E se cada vez que entra em casa, tocasse uma banda sonora? “Seria uma sinfonia de Mozart, sem dúvida!”

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Créditos Imagens: BPMs; Padlock; Manual da Fantasia

NÃO PERCAM O VÍDEO ONDE O CANTOR FALA SOBRE A SUA RELAÇÃO COM A CASA:

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