A Herdeira: O que muitos vêem mas poucos sabem

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De ano para ano as produções portuguesas vão melhorando, e aos poucos, foram mesmo ganhando o espaço que antes era reservado às de nacionalidade brasileira. São sempre salutares os projetos que nascem em Portugal, que dão emprego (a muitos!) portugueses e que se difundem além-fronteiras. As telenovelas são um desses casos. A naturalidade dos atores está mais presente, a imponência das produções é uma realidade e a máquina de comunicação que as envolve está fortíssima.

Como em tudo, há sempre quem não aprecie esta forma de entretenimento, mas eu prefiro ver o fenómeno de um ângulo diferente, que coloque a subjetividade dos ‘’gostos’’ de parte. Prefiro comprovar in loco que estas produções ganharam, de facto, uma dimensão imensa em todas as suas vertentes, onde a cénica não é exceção. E, acreditem, receber um convite para um tour exclusivo para o Decoralista aos cenários d’A Herdeira foi uma motivação extra para o trabalho que hoje vos mostro! Além de fotografias e vídeo trago-vos, ainda, algumas curiosidades que a cenógrafa do projeto nos revelou. Começamos pelo making of?

Tal como a imagem dos atores, pensada de forma altamente minuciosa, onde mesmo o natural e ‘imperfeito’ constam propositadamente – também os cenários o são. Estou certa de que muitas de vocês têm, também, uma certa curiosidade em saber como tudo isto começa: Qual o ponto de partida? Quem são os decoradores? Onde se inspiram? A que lojas recorrem? O que acontece ao mobiliário quando a novela acaba…? A resposta a estas (e outras questões) foi dada pela Catarina Amaro, cenógrafa responsável da novela do momento, da Tvi.

Conheci a Catarina há pouco mais de um ano, quando estive na Plural Entertainment a conhecer os bastidores de uma outra produção. Agora, juntamente com o Diogo Rebelo responsável pelos exteriores, assina a decoração desta grande aposta da TVI.

Começa por contar-nos o entusiasmo diferencial que esta produção, filmada entre Viana do Castelo, Galiza e México, provocou em si. “A base de qualquer trama passa pela existência dos pobres, dos ricos, dos maus, dos bons, dos relacionamentos, etc… Temos por isso, o registo das casas mais senhoriais, como a mansão da família Alvarenga, com a pedra, o xisto… Depois, os ambientes de praia, como a casa do Vicente (Lourenço Ortigão) e, claro, os escritórios e cenários mais modernos e contemporâneos. Mas esta produção teve algo muito particular, que foi a temática do acampamento de ciganos – algo completamente fora do habitual e que me deu um gosto especial. Por um lado, pelo acampamento em si, por outro a realidade de um cigano que é um verdadeiro lobo solitário (interpretado por Pedro Barroso) e que me obrigou à construção de um ambiente muito singular, como a criação da sua própria roulotte.”

E onde foi buscar inspiração?

“A produção e a autora deu-nos algumas pistas, como documentos sobre as comunidades ciganas e outros registos. Mas neste caso concreto, posso partilhar que durante o período que estava desenvolver este trabalho fui à Polónia e, aqui, tal como na Roménia e outros países de Leste, existe mais registos deste lado nómada dos ciganos. Eu estava em Varsóvia e vi uma autocaravana de madeira, parada num estacionamento de automóvel, e pensei… É exatamente isto que eu quero para o meu acampamento!! Tirei uma fotografia, discuti-a em reunião e tudo começou assim: estando muito atenta e focada com o que nos rodeia!”

Acampamento

Complexidades: Mais, menos, assim assim

A cenógrafa revela que a mansão foi a mais complexa, pela sua grandiosidade. Mas o cenário da farmácia de Viana do Castelo, não ficou atrás. “É um ambiente sério e os produtos das vitrinas ou expositores têm regras de exposição muito próprias. Felizmente, tive imenso apoio da Associação Nacional de Farmácias e recebemos formação para não descredibilizar a ‘montanha’ de normas existentes. As embalagens são falsas, foram feitas por nós, tivemos de etiquetá-las para não fazer publicidade a nenhum medicamento, cenografámos tudo: rótulos, gráficos, etc.”

Também contaram com apoio no que diz respeito a mobiliário?

“Sim, tenho móveis, por exemplo, que vieram de museus. Tivemos de ter imenso cuidado, temos até um amovível que teve de ser pensado como um puzzle”.

Eu quero!

Sabe-se que antigamente, pelo facto de não haver capacidade de armazenamento para guardar o mobiliário de cada produção, as peças eram vendidas ou distribuídas de uma outra forma. Hoje já não é assim, no entanto, já alguém cobiçou peças d’A Herdeira?

“Sim!! No caso d’A Herdeira já me fizeram propostas para vender as roulottes, queriam, em concreto, comprar a caravana da Soraia (interpretada por Sofia Ribeiro). No final logo se vê, pois essas decisões não passam por mim…”

Casa do Vicente

E a reciclagem, acontece? Vão buscar artigos a outras novelas?

“Sempre!! É política da casa. Há muitas coisas que são usadas recorrentemente, e em alguns casos até temos de ter o cuidado de não as expor por serem projetos tão próximos…Os sofás neutros são, habitualmente reutilizados, mas peças marcantes é mais complicado. Eu posso estar a montar uma produção e estarem outras novelas no ar, logo, esse espólio não está à disposição. Se não estiverem outras produções a acontecer e puder escolher do armazém, já posso aproveitar. Porém, tenho sempre de ter o cuidado de verificar se as peças disponíveis estão a passar no ar. Geralmente, vamos utilizando os neutros para que possamos ter orçamento para comprar peças que irão caracterizar os novos ambientes. Compro sempre mais pequenos adereços do que móveis grandes precisamente porque vou reciclando.”

Sala do Matias

Arte para todos

N’A Herdeira – e já não é a primeira vez que tal acontece – Contaram, ainda, com a colaboração de artistas plásticos consagrados, pintores e escultores, que cederam obras. José Guimarães, Domingues Rego, Ana Vidigal, Paulo Brighenti e Ana Morais (marca Casulo). “As paredes das nossas novelas têm algo de diferente”, assume Catarina Amaro. “Tratam-se de réplicas que os próprios autores nos cedem, fotografamos com qualidade, ampliámos em tela, e no final destruímos pois não podem voltar a aparecer noutro decor. É uma forma de mostrar ao público obras de arte que importa divulgar. É uma mais-valia para a nossa produção.”

Quarto das irmãs Viegas

Imagens: Divulgação; decoralistablog e ponto28

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